Dizia toda a vizinhança que Ana Cedro Meio era muito boa no que fazia. Tão boa, que a fila de mulheres alcançava a esquina, quase beijando a praça. Diziam, inclusive, que foram as pechinchas de Ana responsáveis pelo progresso feliz de diversos casamentos. Brasileiro algum sabia o que fazer com apenas um real. As brasileiras da vizinhança sabiam: entregá-lo a Ana Cedro Meio. 

Não tinha qualquer talento para as artes plásticas, mas coloria como ninguém os céus da vizinhança. Além disso, quando o vento encontrava sua “obra”, o perfume batia lá na praça, onde os homens desgastavam o cansaço com copos de cerveja e conversas bobas que escandalizariam a imprensa brasileira. O aroma era certeiro: Ana Cedro Meio estava com sua barraca aberta. Se a esposa passasse por ali com uma moeda de um real que fosse, era único o pensamento: hoje tem. Viva Ana. 

Seu talento encantava as mais céticas. É verdade que as mulheres mais novas se deixavam extasiar com os dotes de Ana Cedro Meio muito mais facilmente. Mas, as mais novas levavam as mais velhas com promessas de rejuvenescimento matrimonial. Funcionava. Viva Ana. 

O segredo de Ana era a energia. Não dela, mas do que ela vendia. A vizinhança toda repetia o quão boa nisso Ana era. Envolvente, barata e mística. A fila que quase chegava à praça tinha mulheres de todos os tipos sociais e físicos. E, ainda assim, Ana dava atenção uma por uma. Ouvia suas histórias ora tristes ora picantes e decidia muito sábia: a roxa desbotada, terceira no canto esquerdo. Pegue com suas próprias mãos para já instalar sua energia nela. E use. Mas, não repita. Apenas uma vez, um uso único.

Alguns maridos antes de irem ao trabalho já deixavam até 10 ou 15 reais para suas esposas. E queriam surpresas. 10, 15, infinitas surpresas. Mas, Ana Cedro Meio queria ajudar as mais tímidas, aquelas que não gostariam que o pai ou irmão as visse na fila. Precisava de um local mais discreto, em uma rua menos movimentada e escura. 

Ana Cedro Meio conseguiu o local, falou para poucas pessoas. Então, bem à boca pequena, dizia toda a vizinhança que Ana Cedro Meio além de talentosa, era muito bem sucedida. Lógico que daria certo o novo negócio. Acabaria o outro? Os homens ficaram aflitíssimos. Mas, logo, veio a resposta: claro que não. Funcionarão em horários diferentes. Nunca mais haverá divórcio ou traição nesta cidade. Viva Ana. 

Os detalhes da vida discreta e calma de Crisálida, a menina-flor de seu pai desde o útero, eram conhecidos por toda a vizinhança. E dizia toda a vizinhança que Cris, para os íntimos, todos longe dela, era tão sem sal e sem vida, que possivelmente ainda resguardava sua virgindade. O povo fala demais e sem saber, defendia Ana Cedro Meio. É que os mais abusados desafiavam Ana e seu talento a convencer Crisálida a visitar seu negócio. Poderia dar-lhe, você sabe, alguma vida mais animada a si e seu marido. Ana censurava a besteirada argumentando que a vida era deles e que eles se resolvessem. Ana sabia das coisas. Viva Ana.

Na discreta entrada com uma discreta jovem, uma tímida placa: 10,00 reais a hora. Não importa a modalidade. O espaço praticamente não deu conta do sucesso. Dizia toda a vizinhança que aquele local era mesmo profano, porém operava milagres ainda maiores que as vendas de rua de Ana Cedro Meio. Todas as modalidades disponíveis ficaram lotadas todas as noites. Os maridos que antes deixavam 10, 15 reais antes de ir trabalhar, passaram a deixar 60, 70 ou mais para suas mulheres. Algumas dessas mulheres só voltavam para casa por volta da meia-noite. 

O dono do bar era Josiel, uma figura totalmente introspectiva que não fazia qualquer comentário, apenas ouvia o que diziam os homens no bar, principalmente quando o perfume da “obra” de Ana Cedro Meio batia e os comentários ficavam ainda mais efusivos. Enquanto todos falavam, Josiel era aquela figura mais calada e de cabeça quase baixa, com o rosto escondido por um boné velho e engordurado. 

Josiel passou a fechar seu bar mais cedo, sem protestos dos maridos que saiam ainda mais cedo. No breu da rua, Josiel ficava totalmente invisível. Então, ele serpenteava enroscando-se no poste e assistia animado ao entra e sai do novo negócio de Ana Cedro Meio. Era um super negócio! Ana Cedro Meio sabia das coisas. Viva Ana. 

O coração de Cris parecia querer sair da boca. Ela nunca tinha sentido tamanho nervosismo. Será que era tão errado? Não podia ser. Os desejos não podem ser reprimidos em plena sociedade do século 21. Tentou pensar em coisas boas. Fechou os olhos e respirou fundo, lembrou-se de um imenso gramado verde em que brincava feliz e solta quando era criança. Sorriu. Relaxou. Seu pai apareceu em sua mente carregando-a no colo e girando enquanto gargalhava. A imagem de seu pai fez o corpo congelar. A flor do papai ficou com a respiração suspensa no ar. O oxigênio havia acabado para ela ou seus pulmões já não eram mais capazes de promover a troca de ar. Cris escorou-se em um muro alto e foi desabando aos poucos. 

Josiel fez menção de correr em socorro, mas logo um pensamento lhe travou: vão descobrir que estou espiando. Crisálida já estava toda enrolada, segurando os joelhos com a cabeça voltada para cima, em busca de ar. Ele fez nova menção de ir, ela claramente estava sozinha e em apuros. Outro pensamento travou o corpo: vai ser um escândalo e eu vou ficar de tarado. O coração de Cris talvez pudesse ser ouvido do outro lado do muro onde se encostava. Talvez precisasse de uma ambulância. 

Ana Cedro Meio olhava pela janela do andar de cima. Cris tentava novamente se levantar enquanto Josiel respirava aliviado. Ela deu dois passos trôpegos, espalmou a mão direita no muro como se tivesse ventosa e procurou seu ponto de equilíbrio. Josiel passou sua atenção para a entrada alguns metros à frente do outro lado da rua. Mulheres entravam e mulheres saiam. Pensar no que via fazia o coração gorduroso de Josiel dar-lhe socos no peito. 

Cris fez um sinal para cima, com as mãos. Ana viu e desceu correndo. Foi ao encontro de Cris, que estava camuflada com um chápeu anos 30. Todas olharam para ela quando chegou perto da porta, onde ainda achava seguro. Mas, todas a viram. Era tímida demais para olhar nos olhos de alguém, então nem notou que havia sido notada. Ana chegou ao seu lado e novamente o corpo tremeu. Por tudo: pelo que fazia e por quem estava. Era certo? Por que poderia ser tão errado um mero e simples desejo? E pensar que outrora, a sociedade não só aceitou como poderia-se ter prazer em público. Ela inspirou pelo nariz. O sorriso largo e grande de Ana Cedro Meio trouxe um repentino alívio. Ana conduziu Cris para mais longe, onde os olhares curiosos não as alcançavam. Caminharam na direção da rua mais escura, tão juntas, que pareciam querer fundir em corpo só a fim de a escuridão fazê-las sumir. 

Josiel ficou ainda mais animado com o que viu. Se Ana ficasse sozinha, teria então a oportunidade. Talvez fosse a última de sua vida. Este pensamento deixou Josiel mais corajoso. Serpenteou do poste para o muro e foi se rastejando na direção das duas. Parou. Ana Cedro Meio era uma mulher poderosa demais para ele abordar assim no escuro. Ele sabia do que as freguesas de Ana Cedro Meio eram capazes de fazer. Os maridos não paravam de falar naquilo. Muito poderosa, não podia abordá-la. Mas, ele queria. Queria pelo menos uma daquelas…

Ana e Cris lado a lado. Ana abriu uma pequena bolsa e tirou dois. Enrolou em um tecido rendado e fino, com um cheiro diferente e entregou discretamente a Cris. Ao sentir a textura do tecido e o cheiro que lembrava-lhe a praça quando o vento intensificava, Crisálida abafou um grito fino, no que Ana apenas sorriu sabiamente. Experimente, disse em tom de amiga. 

Na hora em que Ana entregou o tecido a Crisálida, um carro havia passado e o farol iluminou o objeto. Foi o gatilho para Josiel dar mais alguns passos e ter um espasmo de coragem uma vez na vida. Cris seguiu em frente. Ana virou para o lado oposto, na direção de Josiel. Este estava no chão como um bebado ou um idiota qualquer. E, à sua frente, plantava-se Ana Cedro Meio, a mulher mais poderosa da vizinhança. Teve um tremilique. Ana franziu a testa. 

Crisálida caminhava apertando o passo quando se deu conta de que não estava mais sendo vista por Ana. Jogou fora com nojo o lenço que Ana havia lhe entregue, pegou um isqueiro e acendeu o primeiro cigarro. Que delícia. Que coisa mais fantástica. Desde que o tabaco havia sido proibido, ela ficara desejosa de um cigarrinho que fosse. E sabia que seria mal olhada caso fizesse isso em casa. Deus a livrasse de ser vista por quem quer que fosse de qualquer maneira que fosse. Ainda mais fumando tabaco.

Josiel encarava Ana Cedro Meio com medo e admiração. Pois não, disse a mulher séria. No que Josiel não conseguiu dizer mais nada, apenas correu. Foi na direção oposta quando viu o seu objeto de desejo: exatamente como tinha visto quando o carro passou e o farol iluminou. Ele agarrou com toda sua força o objeto, a fim de ter certeza de que não era sonho. Cheirou profundamente o tecido. Mas, tinha um problema: não sabia como usar. Precisava de Ana. Viva Ana. 

A reclamação generalizada passou na televisão e no jornal impresso na internet. Ana Cedro Meio estava chocada com o que ouvia, assistia e lia. Precisou de um chá de camomila e um pedaço de rapadura para voltar ao prumo. Como assim era culpada? Qual era a prova? O som saia do estabelecimento dela? 

Fato era que a delegacia estava apinhada de pessoas. A vizinhança inteira tinha um diagnóstico muito claro: Ana Cedro Meio havia tornado a vizinhança em um hospício a céu aberto. Cheiroso, mas hospício. Morte a Ana. 

Acontece que às 3 horas de toda madrugada, a vizinhança havia virado um inferno.  Ana Cedro Meio era talentosa demais e havia ensinado muito bem as mulheres. Quando abriu o negócio noturno, passou a ensinar danças eróticas e sensuais. Todas as casas e apartamentos da vizinhança passaram a ter música tocando e gente gritando e gemendo. Ninguém dormia, as crianças choravam. Uma semana já que a vizinhança estava de pernas pro ar e de pernas abertas. Nenhum funcionário chegava cedo ao emprego e nenhum patrão conseguia cobrar qualquer coisa. Caos. 

O caos também tomava conta do bar de Josiel. Alguns homens dormiam com a cara no copo, tão cansados que chegavam, outros, punham-se a gritar ou chorar, já não aguentavam mais. Iriam começar a diminuir a quantia deixada para as esposas, todo dia era uma novidade. Bastava uma ou duas horas na escola de performances de Ana Cedro Meio para as esposas voltarem outras. 

Se pouco tempo atrás os homens estavam mais relaxados, agora, estavam mais nervosos ou letárgicos, mas relaxados mesmo, não mais. Ana Cedro Meio tinha acertado muito, mas todos estavam cansados do nível alto exigido por elas todas as noites. Ana Cedro Meio sabia muito bem o que estava fazendo. Morte a Ana. 

Começaram gritando Morte a Ana. Eram lá do norte do país. Ambientalistas, eles diziam. Ana era contra o meio-ambiente. Ana é criminosa. E se a TV do estado havia dedicado apenas uma matéria sobre o caos da vizinhança importante, mas pequena, agora estava cobrindo ao vivo. Quanto mais eles cobriam, mais repórteres de outros jornais do país chegavam e mais os ambientalistas gritavam e então mais a TV dava cobertura, incluindo agora plantões dentro da programação, e aí mais repórteres chegavam para cobrir e a importância do caso só aumentava. 

Não bastasse todo aquele estado de estresse, o calor de janeiro, o banheiro ainda tinha que estar trancado? Bradava o bêbado enquanto batia na fina porta de madeira do banheiro do bar. Seja lá quem fosse que liberasse logo ou ele se aliviaria no copo do corno que trancava há tanto tempo o banheiro. Outro gritou: sai logo! Um terceiro teve a ideia de arremessar uma cadeira contra a porta. É fuleira, derruba rapidinho

Volta e meia no meio dos bêbados há uma luz que acende na cabeça de alguém e a sensatez chega. O quarto bêbado disse: Cadê Josiel para resolver isso? Cadê? Josiel sumiu, ninguém sabe ninguém viu. Ele me serviu cerveja há uns 10 minutos; disse uma voz mais afeminada do canto da parede. Josiel sumiu. Só havia um jeito de entrar naquele banheiro. 

Ana Cedro Meio chegou a soltar uma gargalhada quando viu pela TV que estava sendo acusada de criminosa por um grupo de ambientalistas. Morava na cidade, seus negócios eram na cidade, nada tinha a ver com mata e meio ambiente. Mas, eles insistiam. Ana educou suas clientes no desperdício e foi cúmplice ativa (?) nos crimes terríveis da moda. Morte a Ana. O comentarista na TV fez um editorial repudiando o trabalho contra a educação ambiental brasileira. Dessa vez, falava no jornal de audiência nacional. Morte a Ana. Ela ouviu o grito quase dentro da sua casa. 

Era como se uma bomba tivesse explodido na fina porta de madeira do banheiro do bar. Os estilhaços do vidro tomaram todo o diminuto banheiro quando metade da porta de madeira penetrou com uma força cavalar no centro do espelho. Alguns desses cacos de vidro entraram na testa de Josiel, que caiu instantaneamente e ficou desacordado. Alguns bêbados ficaram sóbrios e os desacordados saltaram. Ele morreu? Só um médico responderia a essa pergunta. O intrigante na verdade era o que ele vestia por baixo. Não, ele não vestia calça. 

Ana Cedro Meio viu-se pela primeira vez em real perigo de sua vida. Pensou em ligar para a polícia, mas se ela estava sendo acusada de crime, seria presa. Refutou a ideia, mas entendeu que não teria tempo. O tumulto lá fora só aumentava. Dizia toda a vizinhança que Ana Cedro Meio era muito inteligente e astuta. Precisava fazer jus à fama. E realmente, teve uma ideia. 

Não seria melhor chamar a ambulância? Perguntou um bêbado, imediatamente censurado por Olavo, o bêbado gordo que havia se jogado contra a porta, se você chamar a ambulância, eles irão chamar a polícia e posso ser preso. Mas, tinha cometido um crime? Josiel não mexia o corpo e os bêbados passaram a se aglomerar para analisar o que Josiel vestia. Parece a cor que minha mulher usou outro dia; disse algum deles. Um babou, outro ficou enjoado. Mas, todos, absolutamente todos, ficaram intrigados: o que Josiel fazia no banheiro com uma calcinha que Ana Cedro Meio vendia? Ana enfeitiçou nosso amigo, disse um bebum.

Ana Cedro Meio reuniu todas as suas calcinhas que vendia na rua, todas usadas por ela, com o perfume da sua perseguida, a que enfeitiçava todos sem quebrar os casamentos. Ela colocou todas na janela e lembrou em um bilhete que as calcinhas eram usadas e curadas por ela e em vez de jogar fora, ela vendia para as mulheres encantarem seus maridos. Os jornalistas e ativistas ficaram inebriados. E então, Ana Cedro Meio teve outra ideia. Jogou todas as suas calcinhas pela janela. O povo enlouqueceu. 60 anos de calcinhas guardadas.

Diz toda a vizinhança que evento daquele porte foi único por aquelas bandas. Os injuriados por conta de um aviso de Ana Cedro Meio de usar apenas uma vez a calcinha, pois na segunda não teria mais efeito, estavam agora ocupados cheirando sua calcinha e curtindo um efeito hedonista inédito e indescritível. Todos ansiosos para irem para casa começaram a se dispersar, no que Ana Cedro Meio vestiu-se em um disfarce e sumiu multidão a dentro.

O velório de Josiel estava lotado, uma vaquinha foi criada a fim de preservar o bar e a meta foi quadruplicada. Os bebuns do dia fizeram o que puderam para apagar as imagens de Josiel de calcinha da mente. Eles juram que conseguiram.

Nunca mais se ouviu falar de Ana Cedro Meio. Muitas mulheres não tocam mais no assunto justamente por nojo e medo de serem julgadas. Há quem diga na vizinhança, à boca pequena, claro, que uma ou outra ainda performa para o marido como Ana ensinou. Mas, é mais fácil falar do capeta do que de Ana Cedro Meio. Há, portanto, um acordo tácito na vizinhança de que é melhor ter casamentos quebrados, mas tranquilos do que casamentos cheios de aventuras que ninguém está preparado para viver.

Esqueça Ana.


Thiago Mourão é empresário e escritor. Tem formação biologia e pós graduação em divulgação de ciências pela Fiocruz. Já publicou artigos em O Globo e outros sites informativos, publicou dois livros e participou da premiada Companhia de Teatro Os Bumburistas, na Bahia.

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